Com o objetivo de facilitar a compreensão de que a cultura manifesta-se em diversos campos de nossa vida cotidiana, apresenta-se várias áreas da cultura local estimulando que professores venham a pesquisá-las em seu território de atuação.

As pessoas vivem em algum lugar e tendem a viver naturalmente juntas. Isso nos faz pensar em espaços mais ou menos delimitados de complexidade social. Mesmo a menor cidade divide seus habitantes e suas casas em grupos. Podemos chamar de comunidade os territórios ou bairros, um conjunto de bairros, algumas ruas, mas sempre são locais onde as pessoas conseguem alguma familiaridade social, geográfica e histórica, onde vivem processos sociais, econômicos e políticos relativamente comuns.

Os saberes comunitários representam o universo cultural local, isto é, tudo aquilo que nossos alunos trazem para a escola, independentemente de suas condições sociais. Esses saberes são os veículos para a aprendizagem conceitual: o que se quer é que os alunos aprendam através das relações que possam ser construídas entre os saberes. Os alunos devem, portanto, ser estimulados a usar seus saberes e idéias a fim de formularem o saber escolar. Procuramos identificar aspectos gerais que possam ser aplicados a diversos contextos, uma vez que se trata de áreas articuladas à estrutura da realidade social e cultural brasileira. Selecionamos onze áreas distintas de saberes:

Habitação – Como se caracterizam as experiências com o espaço? O sentido de próximo/distante; grande/pequeno? Onde e como moram os habitantes deste território? Como são construídas as casas? Identificam-se técnicas específicas? Quais influências (heranças culturais) podem ser reconhecidas? Quais os materiais mais utilizados? As casas foram planejadas? Quem as construiu? Que área ocupam? Quanto aos espaços comuns como caracterizá-los? Há serviços básicos como água, esgoto, luz, correio, endereço? Que outras construções e serviços existem? Fábricas, comércios, distribuidoras? Bibliotecas? Praças?

Corpo/vestuário – Como os membros dessa comunidade/território movimenta seu corpo no cotidiano e nas festas? Que experiências corporais possuem? Há esportes ou danças que marcam a vida comunitária? Que gestos e gingas são mais usados, e em quais circunstâncias? Quais as influências de outros povos e culturas nessa experiência corporal identificada? Como se vestem? As roupas têm características comuns? O que é valorizado? Quem costura? Que materiais são mais utilizados? Por quê? As matérias-primas são locais?

Alimentação – Como se alimentam? Há falta ou abundancia de alimentos? Há desperdício (como, de quê)? Quais são as comidas prediletas das distintas gerações? Quem cozinha? E em que condições? Como combinam os alimentos? Como distribuem e compram os diversos alimentos? A comunidade produz alimentos industrializados ou agricolas? Que relações podem ser estabelecidas entre as comidas e o calendário de festas?

Brincadeiras – Quais são as brincadeiras favoritas (observar as faixas etárias e suas características)? Há diferenças entre as brincadeiras e jogos desenvolvidos na escola e na comunidade? As regras são as mesmas independentemente do contexto? O que muda? Por que muda? As brincadeiras no tempo (observar as relações com a tradição oral). Como brincaram as outras gerações? As brincadeiras e as novas tecnologias, o brinquedo ontem e hoje.

Organização política – Todos os grupos sociais buscam na organização política responder ativa e coletivamente aos desafios que se apresentam. Observe como instauram a idéia de lei, de justo/injusto, proibido/permitido. A ordem social se estrutura a partir das relações entre o poder, direitos, deveres e os cidadãos. Como, neste território, se desenvolvem estas relações? Como o grupo vivencia as regras sociais? Quais os conflitos mais freqüentes? Entre quais atores e interesses sociais?

Condições ambientais – Quais as características geográficas da comunidade? Como o meio ambiente influencia as condições de vida? Qual a história e quais os desafios do desenvolvimento da região? Houve preocupação ambiental neste processo? Quais os atuais desafios ambientais? Como são enfrentados?

Mundo do trabalho (moedas de troca) – Quais os trabalhos mais comuns nesta comunidade? É possível identificar relações entre o mundo do trabalho e a organização político cultural, com as condições ambientais e outros? Qual a qualidade de vida produzida? Através de seu trabalho a comunidade vem encontrando saídas para os desafios locais? O dinheiro é a única moeda de troca entre os moradores da comunidade? E quanto à troca de serviços, como são desenvolvidas as redes de solidariedade? Explorar as relações entre os valores e as práticas comerciais, as trocas de serviços etc.

Curas e rezas – Como cuidam da saúde? Quais os hábitos? Como solucionam os males físicos que enfrentam? Quais as relações da saúde com as condições ambientais? Além da medicina tradicional, quais as tradições e remédios utilizados? Quais as receitas? Como são preparados esses remédios? Por quem? Utilizam rezas para a cura? Há relações entre as rezas e as plantas ou remédios populares?

Expressões artísticas – Elas integram o universo da produção do simbólico, que se expressa em pelo menos quatro linguagens distintas, embora nem sempre independentes. Muitas festas populares e manifestações mais contemporâneas reúnem mais de uma área de expressão numa mesma criação. Podemos, para fim deste trabalho, considerar também as expressões:

VERBAIS: Há particularidade na forma de se comunicar? Quais as expressões mais utilizadas? Quais as gírias? Que relações podem ser estabelecidas entre as expressões verbais e as lendas e as narrativas locais?

VISUAIS: (refere-se ao mundo da imagem) Quais as expressões visuais produzidas? Cartazes? Vestuários? Decorações de festas? Murais? Decorações?

CORPORAIS: Quais as festas e danças? Há dramatização teatral?

MUSICAIS: Há tradição musical específica? A indústria cultural ou cultura de massa, como são estabelecidas as relações?

Narrativas Locais – A vida comunitária é marcada por diversas histórias, algumas ocorridas (fatos comprovados) e outras das quais não se tem certeza, mas às quais todos se referem (as lendas); todas possuem o mesmo valor pois estruturam o imaginário local. É interessante pesquisar esse repertório de histórias e as relações com as outras áreas de experiências comunitárias, como as rezas e curas, as receitas, expressões artísticas, etc.

Calendário Local – É interessante reconhecer e valorizar as datas representativas para a experiência comunitária e compará-las com o calendário socialmente instituído. O calendário comunitário é geralmente composto de crenças, homenagens, personagens, e expressa as histórias daquele grupo.